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Liquidez imobiliária: por que alguns imóveis vendem rápido e outros ficam anos anunciados

Existem vários motivos para um imóvel ficar parado. Mas, entre os casos que analiso em Goiânia, o principal de longe costuma ser um desalinhamento entre o preço pedido e o que o mercado está disposto a absorver.

Lauro SantosAtualizado em 6 de setembro de 2026CRECI-F 44.518-GO

Um imóvel pode demorar para vender por problema físico, documentação, localização, mudança no entorno, perfil muito específico ou baixa demanda. Tudo isso existe.

Mas, quando o imóvel está regular, a região continua funcionando e não existe um defeito grave que afaste o comprador, a causa que mais encontro é outra: precificação errada.

Na minha leitura, liquidez nasce do alinhamento entre produto, localização, preço e demanda. Se uma dessas quatro partes sai muito do lugar, o tempo de venda aumenta.

Primeiro: existem problemas que não são de preço

Antes de concluir que o proprietário simplesmente precisa reduzir o valor, é preciso entender se existe um problema real no imóvel.

Em casas, isso pode aparecer como infiltração grave, problema estrutural, deficiência de projeto ou uma reforma necessária que o proprietário não consegue executar. Em apartamentos, pode ser um edifício antigo, área comum muito deteriorada, condomínio mal administrado ou uma unidade que perdeu competitividade em relação aos prédios próximos.

Documentação também pode travar a venda. Uma restrição, construção não regularizada, divergência registral ou outro ponto técnico pode reduzir o universo de compradores e até impedir determinadas formas de financiamento.

A localização também pode piorar depois da compra

Localização não é uma fotografia congelada no tempo.

O imóvel pode ter sido comprado em uma situação e, anos depois, o entorno mudar. Uma atividade com ruído intenso, odor forte, fluxo de veículos pesados ou outro fator incômodo pode alterar a percepção de valor daquela micro-localização.

Nesses casos, não adianta avaliar o imóvel como se o entorno ainda fosse o mesmo de quando ele foi adquirido. O comprador de hoje está avaliando a situação de hoje.

Se o problema não pode ser resolvido, o preço precisa reconhecer o problema

Esse é um ponto que considero importante. Às vezes o proprietário sabe que o imóvel precisa de reforma, mas não tem capital, tempo ou interesse para executá-la.

Não existe nada de errado nisso. Só significa que o preço precisa abrir espaço para o próximo comprador fazer o trabalho, assumir o risco e ser remunerado por isso.

O mesmo vale para uma condição ruim de entorno que não deve mudar no curto prazo. Se você não consegue corrigir o problema, dificilmente conseguirá precificar o imóvel como se ele não existisse.

Na maioria dos casos que analiso, o problema principal continua sendo o preço

Supondo que o imóvel esteja em condições normais, com documentação regular e localizado em uma região que continua tendo demanda, a pergunta passa a ser simples: o mercado aceita pagar o valor pedido?

O proprietário pode ter uma expectativa legítima. Pode ter uma meta para comprar outro imóvel, investir, quitar uma dívida ou simplesmente entender que o patrimônio vale mais.

Mas o imóvel não passa a valer determinado valor porque o proprietário precisa dele. Também não passa a valer determinado valor porque foi comprado caro no passado ou porque uma reforma custou muito.

O imóvel vale, economicamente, aquilo que encontra comprador disposto e capaz de pagar dentro das condições daquele mercado.

Meses sem aderência são um sinal que precisa ser lido

Eu não trato seis meses como uma regra universal. Existem produtos de ticket alto, imóveis muito específicos e mercados com giro naturalmente menor.

Mas, em um imóvel comum para aquela região, meses se acumulando sem propostas compatíveis, sem visitas qualificadas ou com recorrência de objeção ao preço são um sinal importante de que a estratégia precisa ser revista.

Às vezes o proprietário insiste durante um, dois ou três anos até conseguir vender pelo número que desejava. E aí aparece uma sensação de que a espera “deu certo”.

O problema é que isso precisa ser comparado com o dinheiro no tempo.

Esperar pelo preço desejado também tem custo

Imagine que você recebeu uma proposta menor hoje e recusou porque acredita que o imóvel chegará ao seu preço ideal daqui a alguns anos.

Durante a espera, existe IPTU, condomínio quando aplicável, manutenção, reparos, seguro, deterioração natural e, principalmente, custo de oportunidade.

Se o valor que você poderia ter recebido estivesse disponível para outra compra, outro investimento ou uma aplicação financeira, quanto ele teria produzido no mesmo período?

É muito comum olhar uma venda feita anos depois e perceber que parte da diferença nominal serviu apenas para atualizar o capital no tempo. O proprietário conseguiu o preço que queria, mas não necessariamente ganhou mais dinheiro.

Por isso, quando alguém decide esperar, eu considero importante que seja uma decisão consciente: qual é o custo mensal de manter o imóvel e quanto o preço de venda precisaria crescer para compensar a espera?

Um erro frequente começa antes da venda: comprar mal

Muitas vezes a dificuldade de precificação atual nasce na compra.

O proprietário pagou um valor alto demais, carregou o imóvel por pouco tempo e depois quer uma margem que o mercado ainda não incorporou. Nesse cenário, reduzir o preço pode significar reconhecer que a compra anterior não foi boa.

É desconfortável, mas o mercado atual não corrige automaticamente um erro cometido anos atrás.

Outro erro: reformar além do que o imóvel e a região conseguem remunerar

Eu costumo dizer que todo imóvel tem um limite econômico de quanto faz sentido investir nele.

A partir de determinado ponto, a reforma continua melhorando o imóvel, mas o mercado deixa de devolver esse investimento na mesma proporção.

Isso acontece porque o comprador não avalia apenas o interior da unidade. Ele compra também endereço, prédio, área comum, vizinhança, serviços, padrão construtivo do entorno e alternativas disponíveis na mesma faixa de preço.

Um apartamento de R$ 500 mil não vira automaticamente um ativo de R$ 1,2 milhão porque recebeu uma reforma de R$ 500 mil

Já analisei um caso em que os apartamentos da região estavam, de forma aproximada, entre R$ 400 mil e R$ 500 mil. Na própria torre, as unidades anunciadas ficavam perto de R$ 480 mil a R$ 550 mil.

O proprietário fez uma reforma de altíssimo padrão e investiu aproximadamente mais R$ 500 mil na unidade. Para recuperar o que colocou e atingir o retorno desejado, sua expectativa de venda passou para algo próximo de R$ 1,2 milhão.

O apartamento, internamente, ficou muito superior aos demais. O problema é que quem possui capacidade para comprar um imóvel de R$ 1,2 milhão começa a comparar aquele produto com outros bairros, edifícios e áreas comuns projetados originalmente para essa faixa de preço.

A reforma não consegue, sozinha, reposicionar todo o prédio e toda a região.

O mesmo problema pode acontecer em imóvel econômico

Já vi situação semelhante em imóvel residencial de perfil econômico. O proprietário transformou completamente a casa, ampliou, construiu um sobrado e levou o padrão interno muito acima da vizinhança.

Somando aquisição e obra, o capital investido passou de R$ 750 mil, enquanto imóveis do entorno estavam predominantemente em uma faixa muito inferior, aproximadamente entre R$ 240 mil e R$ 320 mil naquele momento.

O resultado físico ficou excelente. O problema econômico permaneceu: o comprador com orçamento próximo ao valor investido tinha alternativas em regiões e produtos de padrão superior.

Qualidade de reforma não elimina o teto econômico imposto pelo conjunto do produto.

Como eu penso a precificação para gerar liquidez

Eu não começo pela pergunta “quanto o proprietário quer receber?”. Começo procurando entender onde aquele imóvel está posicionado em relação aos concorrentes.

Olho unidades semelhantes, localização, estado de conservação, planta, idade, condomínio, diferenciais, documentação, oferta disponível e comportamento das propostas quando essa informação existe.

Depois disso, a estratégia pode mudar conforme o objetivo do proprietário. Quem precisa de velocidade não deveria trabalhar com a mesma margem de negociação de quem aceita esperar. Mas mesmo quem aceita esperar precisa reconhecer uma faixa de mercado realista.

Liquidez também vale para locação

A lógica é muito parecida no aluguel. Um imóvel pode permanecer vazio porque o proprietário está tentando obter um valor que a soma de aluguel, condomínio e demais encargos torna pouco competitiva.

Nesse caso, esperar alguns meses para tentar ganhar um pouco mais por mês pode produzir resultado financeiro pior do que aceitar uma proposta menor e começar a receber antes.

Por isso, preço e velocidade precisam ser analisados juntos.

Antes de decidir esperar, eu faria estas perguntas

  • existe um problema físico que está afastando compradores?
  • a documentação está reduzindo o universo de interessados?
  • a micro-localização mudou desde a compra?
  • o imóvel está competindo com produtos melhores na mesma faixa de preço?
  • a reforma ficou acima do padrão que a região consegue remunerar?
  • quantos meses o imóvel já está exposto sem aderência real?
  • quanto custa manter o imóvel por mês?
  • quanto o capital poderia render ou produzir em outra oportunidade?
  • qual preço adicional seria necessário para compensar esse tempo?

Se a resposta para manter o preço for apenas “porque foi isso que eu gastei” ou “porque é isso que eu quero receber”, falta uma parte importante da análise.

Liquidez não é vender barato. É encontrar o ponto em que preço, produto e mercado conseguem se encontrar.

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